Sopros em alta: quatro discos em torno da origem do jazz

Está lá, no DNA do jazz desde o nascimento: esta é uma música que privilegia o swing, abraça o improviso como forma de expressão e sempre está afim de “contar” uma história. Quer participar do dia a da comunidade, no bordel como na igreja; nos enterros e casamentos; na alegria dos bons momentos e na tristeza do duro trabalho e dos sofrimentos da vida.

Desde Buddy Bolden e Jelly Roll Morton, na virada para o século 20, o gênero dava sinais de que se afirmaria primordialmente por meio do improviso – obedecendo ao maior mandamento da cultura africana, o da oralidade. O pré-natal foi longuíssimo. Iniciou-se com os grupos musicais social e culturalmente utilitários de New Orleans até o nascimento com o famoso solo de Louis Armstrong em West End Blues, de 1927.

O reino do trompete conviveu desde o início, entretanto, com o saxofone de Sidney Bechet, genial contemporâneo do Satchmo. De fato, desde os primórdios, os sopros dominaram este universo musical: a tuba foi a antecessora do contrabaixo. Quatro lançamentos recentes tecem variações em torno destes discursos jazzísticos originais dominados pelos sopros. E o público continua vibrando com os longos improvisos captados no chamado “calor da hora”, em shows ao vivo.

Como música basicamente oral e improvisada, o jazz, mais do que qualquer outro gênero, beneficiou-se da era da gravação. E hoje, quando não há mais limite de tempo e a venda de discos tem pouco a ver com as carreiras dos músicos, o foco vai com certeza para as apresentações ao vivo.

Não por acaso, dois dos mais premiados álbuns de 2009 são registros ao vivo: Road Shows Volume 1, do sax tenor Sonny Rollins, de 79 anos, foi escolhido como o melhor do ano pelos leitores da revista Downbeat, a bíblia do jazz mainstream; de igual modo, Heaven on Earth também teve bastante destaque. Liderado pelo fantástico saxofonista James Carter, de 41 anos, um grupo de cobras criadas cria uma usina incendiária de sons em show ao vivo no Blue Note de Nova York.

O outro par de CDs também dominado pelos sopros volta seus olhares para New Orleans. O veterano Allen Toussaint, 72 anos, revisita em Bright Mississippi os grandes temas que em sua cidade deram certidão de nascimento ao jazz, com convidados do maior respeito: Don Byron na clarineta, Nicholas Payton no trompete e o guitarrista Marc Ribot. No segundo CD, o trompetista Dave Douglas, 46 anos, assume o formato de um quarteto de metais (trompete, trombone, trompa e tuba) acompanhado apenas por bateria, e viaja pelo universo de sons matriciais de New Orleans. Mas com um discurso moderno, moderníssimo.

Road Shows – 1

som Ouça ‘Best Wishes’

Quem já assistiu a um show de Sonny Rollins, lendário saxofonista de 79 anos, sabe que ele gosta de mostrar suas armas ao público assim que pisa no palco. É o que faz neste CD de seu selo Doxy, em que escolheu sete performances num baú de mais de 200 gravações de seus shows entre 1980 e 2007. Ele abre improvisando 35 “choruses” e há clássicos como Tenor Madness, gravado em 56 com Coltrane e aqui em 2000. Exuberância, improvisos surpreendentes e qualidade de invenção superlativa, regada a swing. Quem quer mais?

Spirit Moves

som Ouça “Mister Pitful”, de Dave Douglas

Dave Douglas estudou em Berklee e no New England Conservatory; cita como influências Stravinski e Lester Bowie. Este é seu mais recente experimento formal. A fórmula inclui um ex-trompista da orquestra de Sun Ra e um ex-tubista da orquestra de câmara clássica Orpheus. O entrechoque é estupendo. É New Orleans style, só que radicalmente transfigurador. (Selo Green Leaf)

Bright Mississipi

som Ouça “Just a Closer Walk With Thee”, de Allain Toussaint

Delicado mergulho na música de New Orleans por um veterano de 71 anos. Alain Toussaint já trabalhou com todo mundo. Aqui, cerca-se de músicos notáveis (Nicholas Payton, Marc Ribot, David Piltch, Jay Bellerose, Brad Mehldau, Joshua Redman) para performances de clássicos que soam familiares mas novíssimos. Exemplos? O refinado toque de Don Byron (foto) em duo com Toussaint no gospel Just a Closer Walk With Thee; ou então Marc Ribot em duo em Solitude, de Ellington. Tudo sutil, refinado, emocionante. (Selo Nonesuch)

Heaven on Earth

som Ouça “Slam”s Mishap”, de James Carter

James Carter (foto) assombrou o mundo nos anos 90 quando tocou com Wynton Marsalis e Lester Bowie. Do primeiro, captou o gosto pelas raízes; do segundo, o olhar para o futuro. Carter tradicional? Ouça Diminishing, de Django Reinhardt. Carter experimental? Blue Leo, tributo ao sax-barítono Leo Parker. Carter baladeiro? Street of Dreams, de Victor Young. Carter bossa nova? Infiniment. Fulgurante. (Selo Half Note)

via: Estadão

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Marvio Rocha

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