Talento para a música erudita

No Interior do Ceará, o estudo da música clássica está crescendo e transformando a vida dos jovens


Pindoretama O som das notas musicais em Pindoretama cresceu lado a lado com o desenvolvimento dos jovens talentos no município. Um ajudou o outro e, hoje, o resultado é exemplar: adolescentes, que antes eram apenas alunos, tornaram-se monitores dos novos integrantes da Orquestra de Sopros. Agora, eles são os responsáveis por manter o projeto iniciado ainda sob as sombras de uma mangueira, com a iniciativa do maestro Arley França, há 10 anos. Juntos, viram o projeto crescer, ganhar asas e até participar de apresentações musicais por duas vezes, na Alemanha, em 2002 e 2006.

O que antes parecia apenas um sonho tornou-se realidade com a dedicação de cada jovem músico. Atualmente, eles percebem que a oportunidade que tiveram em 1999 foi fundamental para mudar o futuro, criando um presente mais promissor. No entanto, a Orquestra de Sopros de Pindoretama não se resume somente em tocar canções para a plateia.

Mais que isso: os alunos aprendem a música, estudam as partituras e podem, depois de seis meses de estudo, tocar qualquer repertório profissional. Mas, para isso, é preciso muita dedicação, porque esses repertórios só podem ser tocados a partir de um determinado conhecimento musical obtido pelos estudos das partituras. E os jovens de Pindoretama têm condições para desenvolvê-lo. Com a conquista recente do Ponto de Cultura, os alunos poderão participar de editoração de partituras e criar, com mais facilidade, arranjos musicais no computador. Para isso, todos os dias, sempre no horário da tarde, os integrantes da Orquestra de Sopros ensaiam na nova sede. O projeto é mantido em parceria com a Prefeitura Municipal de Pindoretama, Instituto Oi Futuro, Secretaria da Cultura do Estado (Secult) e Ministério da Cultura.

Para o maestro e diretor do Ponto de Cultura Amigos da Arte, Arley França, a metodologia utilizada com os jovens músicos de Pindoretama é a mesma de várias partes do mundo, porque é baseada no aprendizado a partir das partituras, não ficando limitado somente ao cenário local. Isso já consolidou parcerias com orquestras e músicos de outros países, como Alemanha, Noruega e Estados Unidos. De acordo com o maestro, a parceria consiste em receber ou enviar partituras como meio de promover um intercâmbio musical entre os jovens.

“Eles (os alunos) leem as partituras do jeito que deve ser. Não há diferença. A única coisa que muda é a instalação do prédio, mas nossos alunos têm condições de compreender a música sem complicações”, diz o maestro. É a prática da máxima que coloca a música como linguagem universal. Com o tempo de estudos, os jovens músicos têm condições de tocar canções consideradas difíceis, como a obra musical “Overture for Winds”, de Charles Carter, e “Suíte Nordestina”, de autoria do maestro Duda (PE).

Os músicos

Nos dez anos de existência da Orquestra de Sopros, cerca de 500 jovens já tiveram a oportunidade de mudar de vida. Alguns deles continuam no projeto que os acolheu e retribuem o conhecimento adquirido com o maestro Arley França ensinado aos novos alunos, motivados pelo mundo da música. Um deles é o estudante de Administração e Marketing Adriano Martins, 27 anos, que também ocupa o cargo de vice-diretor do Ponto de Cultura Amigos da Arte. Adriano, que está no projeto desde a fundação, sabe da importância para o incentivo das artes no Interior do Estado do Ceará.

“É uma oportunidade a mais de educação no município. Já participei de monitoria em cursos em Crateús, Guaiúba, e hoje estou vivendo a profissão que mudou a minha vida”, diz. Da mesma forma aconteceu para os ex-alunos da orquestra e que atuam como monitores: Higor Sampaio, Demisvânia Landim, ambos de 23 anos; e Wellinton Sousa, 21 anos, que atualmente cursa bacharelado em Composição na Universidade Estadual do Ceará (Uece). Para eles, o mundo da música proporcionou bons resultados. Além das participações internacionais, o monitor Wellinton já chegou a ser premiado duas vezes pelas produções de composição, sendo um deles, o Prêmio Alberto Nepomuceno de Composição.

“Para quem não tinha perspectiva no que fazer, a orquestra chegou em boa hora”, diz o jovem compositor. O pensamento também é dividido com os demais amigos que jamais pensavam em ter uma mudança de vida ocasionada pela música. “Quando eu comecei tinha apenas 12 anos. Nem fazia ideia do que era música e sempre lembro das palavras do Arley dizendo que a gente precisa acreditar no nosso sonho. Quando ele contava que já tinha ido à Itália, sempre pensava em ir também”. Hoje, Demisvânia é monitora de teoria da música – responsável por ensinar partituras aos novos alunos da orquestra – além de integrar a Orquestra Filarmônica do Estado do Ceará.

No entanto, para que os alunos se “encontrem” na música, leva algum tempo. Foi o caso do monitor Higor Sampaio. Ao ingressar na orquestra, ele passou por sete instrumentos até se dedicar ao trombone, aprendendo também a tocar tuba para participar das apresentações na Alemanha. “A orquestra me tornou um músico profissional”.

Mesmo os jovens sendo motivados para a música, a ideia principal da Orquestra de Sopros é fazer com que eles não sejam como Mozart, Beethoven, Bach ou Vivaldi. Mas que recebam inspiração dos nomes e das partituras da renomada música clássica e aprimorem as aptidões, criando novos arranjos e levando o nome do Ceará para o cenário internacional.

Mais informações
Ponto de Cultura Amigos da Arte
Rua Francisco das Chagas Pinheiro, 2211
Pindoretama
(85) 3275.2976

ENQUETE
O que o motivou a participar da Orquestra dos Sopros?

Eveline Andrea da Silva
11 ANOS
Aluna

“Achei muito interessante o trabalho da Orquestra de Sopros, pois sempre tive o sonho de tocar música”

Geísa Bento da Silva
10 ANOS
Aluna

“Eu vim participar da orquestra por causa das minhas amigas, mas todas elas saíram e eu fiquei”

Luan da Silva Ribeiro
13 ANOS
Aluno

“Sempre tive o sonho de tocar em uma banda de forró e aprender a tocar um instrumento vai me ajudar”

Alisson Silva Santos
15 ANOS
Aluno

“Eu entrei na orquestra porque é um projeto grandioso que pode nos dar outra oportunidade de vida”

MAURÍCIO VIEIRA
REPÓRTER

ZONA NORTE
Amor ao violino com incentivo do pai

Sobral Eles aprenderam a tocar violino por incentivo do pai, mas foi a dedicação que transformou os irmãos Hermano Neto, 18, e Domingos Filho, 20 anos, em bons músicos. “Ver meus filhos tocar violinos é seguramente um prêmio”, diz orgulhoso Domingos Mouta Vasconcelos, pai dos rapazes.

Mas foi no ano de 2000 que tudo começou, quando ingressaram na Escola de Música. Eles já tocaram ao lado de pessoas famosas como o pianista Arthur Moreira Lima e já se apresentaram em vários lugares como o Dragão do Mar. Domingos Filho conta que ainda com 9 anos de idade viu o interesse no pai em encontrar na Escola de Música de Sobral uma vaga para matriculá-los. “A gente veio pra cá nesta época e permanecemos por aqui até hoje, sempre com a vontade de aprender cada vez mais e também encontrar no futuro uma oportunidade para o sucesso”, disse Filho, ao mesmo tempo em que lamenta não ter encontrado oportunidade nem patrocínio que pudesse impulsionar a carreira de músico. “O pessoal que abre espaço para a música ao vivo não nos contrata para apresentação. Se isso acontecesse, seria muito bom. O nosso trabalho fica restrito a cerimônias de casamentos ou eventos de inauguração de alguma loja”, adianta Domingos, que garante que já tem CD pronto para ser gravado aguardando somente o apoio financeiro. “A matriz do nosso primeiro CD está pronto, falta alguém interessado em patrocinar”.

Hermano Neto relembra a emoção que sentiu ao estar ao lado de Arthur Moreira Lima, quando ele se apresentou em Sobral, em janeiro deste ano, dentro do projeto “Um piano pela estrada”, projeto pioneiro idealizado pelo próprio Moreira Lima. “Foi emocionante estar ao lado de uma pessoa como Arthur Moreira Lima. Um momento que jamais vou conseguir apagar da memória”.

Dedicação

Mas, para viver este momento, foi preciso muita dedicação. “Quem chega à escola de música acha que vai aprender logo a tocar instrumento. Mas não é bem assim. Primeiro nós ensinamos às pessoas a gostar de música, aprender ouvir música. Depois é que surgem as primeiras aulas de como tocar um instrumento musical”, diz Vanderlei Alves, maestro e professor da Escola de Música de Sobral, que acompanhou a chegada dos irmãos à escola. Ele foi o primeiro instrutor de Hermano e Domingos Filho e tem uma avaliação pessoal sobre a dedicação dos irmãos pela música.

“Os meninos são muito inteligentes e dedicados. Eu me lembro de quando eles chegaram aqui na escola, ainda muito pequenos. E eles tinham tanta vontade de aprender que ensaiavam por conta própria, fora do expediente da escola e fora do repertório, sempre procurando aprender coisas novas”.

Ensaios

Essa dedicação fez com que os pais cedessem o espaço da casa para os músicos ensaiarem. “Tinha dias que o pessoal saía de casa para não atrapalhar nossas aulas”, disse Hermano. O esforço dos rapazes rendeu um aprendizado diferenciado, que garantiu destaque na Escola de Música. O maestro Vanderlei informa que entre os músicos da cidade vê nos irmãos a oportunidade de um mercado mais amplo, por eles tocarem instrumentos que não são tão comuns.

Mais informações
Hermano e Domingos Filho
(88) 3611. 5484

WILSON GOMES
COLABORADOR

Via: http://diariodonordeste.globo.com

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